Primal Scream – Screamadelica


Pode reparar, alguns dos melhores discos ou músicas funcionam como tradução sonora do zeitgeist, o espírito de uma época. São documentos que dizem tanto sobre um período quanto as melhores fotografias e textos. É música com um sentido de relevância único.
What’s Going On, de Marvin Gaye, flagra a crise existencial americana da virada dos 70. Construção, de Chico Buarque, é o Brasil sufocado e/ou alienado pela ditadura militar. Revolver, dos Beatles, é puro “Swinging London”, quando o pop assume a posição de centro do universo. The Chronic, do Dr. Dre, sintetiza a mescla de niilismo e hedonismo que caracteriza o gueto americano da era gangsta em diante.
Screamadelica, que completa 20 anos em 2011, é um disco fantástico. E é um disco de “zeitgeist”. Se achassem ele numa cápsula do tempo daqui a 200 anos conseguiriam entender muita coisa de sua época. Sua música transmite delírio, ambição, euforia, alegria de viver, catarse química, introspecção drogada, alucinação, escapismo e inconsequência. Sensações comuns a boa parte da juventude inglesa na virada dos 90. Um tempo especialmente louco.
Em 1991, o extasiado movimento da acid house, deflagrado quatro anos antes, estava longe de perder o gás. Pelo contrário. Só fazia expandir. Como uma seita do bem, ia arrebatando milhares de novos convertidos a cada fim de semana.
Em épocas assim, existe uma sensação palpável de que é possível construir um mundo diferente. Dois anos antes, o fanzine do pioneiro clube londrino Shoom já pedia aos frequentadores: não abandone seu emprego diurno. Era intensa a lua de mel com o MDMA.
Todo mundo se trombou na pista, concretizando a utopia: fashionistas, universitários, hooligans, jetsetters, popstars dos anos 80, operários, gangsters, velhos hippies. O Primal Scream era então mais uma banda indie com fixação nos anos 60. Tinha feito barulho no mundo NME com um single chamado “Velocity Girl”. Mas, quando a bala bateu, se deixou levar pela enxurrada.
Numa rave, conheceram um DJ chamado Andrew Weatherall. Sem pretensão, pediram para ele remixar sua música “I’m Losing More Than I’ll Ever Have”. Weatherall apagou tudo e começou do zero. Não devolveu um remix, mas uma criatura completamente diferente: breakbeat eletrônico, vocais gospel, arranjo quase todo instrumental, samples do filme Anjos Selvagens, de Peter Fonda. No meio do sacolejo resultante, frases do vocalista Bobby Gillespie levitavam, como pequeno lembrete do original. O extreme makeover merecia ser rebatizado: “Loaded”. Começava uma nova era para o Primal Scream.

Primal Scream – Loaded
“We want to be free/To do what we want to do” (“queremos ser livres/para fazer o que queremos fazer”), o sample de Fonda que abre “Loaded”, virou profissão de fé da banda. Screamadelica foi a conclusão lógica.
Levadas blues-soul a la Exile On A Main Street (Jimmy Miller, produtor desse clássico dos Stones, faz parte do time de Screamadelica), dub subaquático, jazz transcedental a la Sun Ra, trips PinkFloydianas, ambiências de Brian Eno, pisadas de house, beats de hip hop, coros gospel, discurso de Jesse Jackson, frases de Kraftwerk: o álbum tinha tudo isso e mais.
Primal Scream – Inner Flight

Em Screamadelica, o grupo deixou a humildade, a timidez e as barreiras de lado (drogas têm sua utilidade, sim). Não fosse assim, teriam pensado duas vezes em tentar processar quatro décadas do eixo jazz-soul-dub-funk-house-blues num único álbum. Isso sendo quatro branquelos escoceses que gravavam pelo templo indie Creation. Repito: drogas têm sua utilidade.
E caso restasse alguma dúvida do papel das drogas na confecção desta obra-prima, o Primal Scream tratou de desenhar nos títulos: “Don’t Fight It, Feel It” (“não resista, sinta”), “Inner Flight” (“voo interno”), “Higher Than The Sun” (“mais alto/louco que o sol”) e “I’m Coming Down” (“está passando o efeito”)
Aos 20 anos, ele continua relevante, interessante, inspirador e bom de ouvir. Ainda que seja para lembrar do que está em falta hoje. Não só álbuns assim, mas, principalmente, contextos que fazem surgir álbuns assim.
Primal Scream – Come Together






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